No início desse mês, poucos dias após celebrar seus 70 anos, o Brasil se despediu de Frei Sérgio Görgen, liderança histórica do movimento camponês, fundador do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e um daqueles raros homens que conseguiram unir fé, ação social e compromisso político com os mais pobres. Frei Sérgio não fez da religião um púlpito vazio: fez da espiritualidade uma ferramenta concreta de transformação da realidade.
Sua trajetória é marcada pela luta pela soberania alimentar, pela agricultura familiar e pela dignidade dos trabalhadores do campo. Sobrevivente da violência agrária, articulador de movimentos populares e presença constante nas comunidades esquecidas pelo poder público, Frei Sérgio foi daqueles que não esperava soluções caírem do céu, arregaçava as mangas e ia pra onde o povo estava.
Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Durante a enchente de setembro de 2023, ele esteve conosco na Cozinha Solidária do MST instalada no Salão Paroquial, ajudando a preparar marmitas no meio da calamidade. Depois, percorreu todo o interior do Vale do Taquari cadastrando pequenos agricultores que perderam suas lavouras. Eu e meu pai, Silvio Cadore, caminhamos ao lado dele em Encantado, distribuindo centenas de sacos de sementes do MPA para quem precisava recomeçar do zero.
Infelizmente, nem todas as reações à sua morte foram de respeito. Nas redes sociais, apareceu um comentário dizendo que era “pena não ter sido antes”. Confesso: doeu ler aquilo. Não por mim, mas pelo que revela sobre o tempo em que vivemos. Resolvi responder lembrando algo simples e verdadeiro: Frei Sérgio esteve conosco nas enchentes, ajudando nas marmitas, cadastrando agricultores, distribuindo sementes. Não se trata de divergência política, trata-se de humanidade.
Celebrar ou banalizar a morte de alguém que dedicou a vida aos que passam fome, aos que perderam suas casas, aos pequenos agricultores esquecidos pelo poder público diz muito mais sobre quem comenta do que sobre quem partiu.
Vivemos tempos em que a desinformação, o ódio e o individualismo tentam ocupar o lugar da solidariedade. Frei Sérgio nos ensinou o contrário: que política se faz com presença, que fé se vive com compromisso social e que não existe neutralidade diante da miséria.
Sua partida deixa um vazio, mas também uma responsabilidade coletiva. Honrar sua memória é seguir lutando por justiça social, por reforma agrária, por comida saudável na mesa do povo e por um país onde a dignidade não seja privilégio.
Frei Sérgio “morreu de tanto viver”, como foi dito em seu velório. Mas sua obra permanece viva em cada agricultor que recebeu sementes, em cada família alimentada nas cozinhas solidárias e em cada pessoa que ainda acredita que outro Brasil é possível. Frei Sérgio semente, presente, presente, presente!

