Com o intuito de contar um pouco da história de cada comunidade, a Série Especial do Jornal de Roca Sales “JRS pelas Comunidades” irá apresentar histórias de diferentes localidades de Roca Sales, resgatando memórias e valorizando tradições que, com o tempo, correm o risco de serem esquecidas.
O primeiro capítulo nos leva até a localidade da Linha Marechal Floriano, que é dividida entre as comunidades de Arroio Augusta Baixa e Arroio Augusta Alta. A primeira parada foi em Arroio Augusta Baixa, um local marcado por profundas memórias e pela luta constante dos habitantes para manter suas tradições vivas.
Com uma população de aproximadamente 150 pessoas e distante cinco quilômetros da sede de Roca Sales, o local mantém e preservação suas festas tradicionais e religiosas, bem como dá continuidade ao modelo de vida simples e colaborativo. A estrutura organizacional é democrática, com uma diretoria eleita a cada dois anos.
O atual presidente é Celso Luiz Jachetti (72), que embora tenha nascido na localidade de Marques do Herval (Picão), reside em Arroio Augusta Baixa há 16 anos com a esposa Ires Maria Jachetti (72). Ao lado da vice-presidente Marlene Schmitz e do tesoureiro Sidney Beran, ele trabalha para manter a continuidade das atividades comunitárias.
No entanto, ele acredita que sua responsabilidade se encerrará com a conclusão de sua gestão, já que a liderança da comunidade é rotativa, permitindo que novas lideranças se formem.
Entre as principais atividades culturais, constam no calendário as festas em honra à Nossa Senhora do Rosário, em junho, e São Luís, em outubro. Essas festividades são celebradas com almoços comunitários, bailes e pratos típicos. Os eventos, que atraem até 400 pessoas, são preparados com dedicação, como destaca Jachetti. “Fizemos a compra de alimentos como boi, porco e galinhas, pois queremos que todos os convidados sejam bem atendidos”.
Durante as festas, a comunidade adota um sistema informal de vendas, onde as fichas para participação nos almoços e bailes não são comercializadas antecipadamente, mas organizadas conforme a demanda, com estimativa de 350 a 400 participantes.
Apesar do calor humano nas festas, a comunidade enfrenta desafios, como a migração dos jovens para as cidades em busca de novas oportunidades e a falta de infraestrutura básica, como iluminação pública. Entre as principais atividades econômica da comunidade está o cultivo de soja, milho e a criação de suínos.
Memórias de quem viu o lugar surgir
A história da comunidade de Arroio Augusta Baixa está repleta de relatos e vivências de moradores antigos, como Luiz Pedrotti, de 99 anos, e a esposa Glaci Pedrotti (77). Casados há 50 anos, eles contam episódios curiosos e marcantes que formaram a identidade local.
“Lembro bem quando fizeram a torre da igreja. O meu pai estava trabalhando na fábrica que ficava a oito quilômetros de distância de casa. Isso ficou marcado”, relembra Pedrotti, com clareza sobre acontecimentos do passado que marcaram sua juventude. “Tem um arroio que divide a nossa comunidade, do lado esquerdo é conhecido como ‘posterno’, pois o sol não atinge muito”, conta o quase centenário morador.
“Temos nossa vida aqui e sempre gostamos de morar nesse lugar”, completa a esposa. No entanto, o casal lamenta a diminuição da participação dos moradores nas atividades religiosas e culturais. “Antes, quando havia uma missa, a igreja ficava cheia. Hoje, muitas vezes não tem nem 15 pessoas”, observa, evidenciando o impacto da migração dos jovens e a redução no número de habitantes na preservação das tradições locais.
A casa histórica da família Zeni
Além das histórias coletivas, as memórias familiares também são parte importante do patrimônio de Arroio Augusta Baixa. A família Zeni, por exemplo, tem uma ligação com a história da comunidade. Ildo (91) e a esposa Eli Zeni (87) são a terceira geração a viver na mesma moradia.
Essa residência, inicialmente simples e em madeira, passou por algumas reformas ao longo dos anos, mas mantém características originais que representam a história da família, como as paredes de pedra, os utensílios domésticos e também uma parte do piso e assoalho.
A origem da família remonta ao bisavô Domingo e ao avô Massimiliano Zeni, imigrantes italianos que chegaram ao Brasil. “A casa, que foi morada das gerações anteriores, continua a ser um ponto de referência da nossa família. E nós nos empenhamos em preservar o imóvel e a memória dela”, comenta Eli, acrescentando que a casa histórica se tornou seu lar após as enchentes que afetaram sua antiga residência, localiza no Centro de Roca Sales.
Embora o tempo traga desafios, como a falta de recursos e o êxodo rural, Arroio Augusta Baixa ainda mantém viva a chama da solidariedade e do espírito comunitário. “As festas e a colaboração entre os moradores nas atividades cotidianas mostram que, apesar das dificuldades, o vínculo entre as pessoas permanece forte”, comenta Eli.








